Em quanto os carros chineses impactam na indústria brasileira?
As marcas chinesas que estão invadindo o Brasil com carros eletrificados já emplacam em grande volume. Mas para Alexander Seitz, CEO da Volkswagen América do Sul, isso não assusta a marca alemã:
Existe uma ameaça dos novos competidores, mas não temos medo”
A frase foi dita durante a apresentação do novo Volkswagen Tiguan, que estreou com preço de R$ 299.990. Nessa faixa existem modelos asiáticos híbridos que fazem sucesso, como o GWM Haval H6 e o BYD Song Plus.
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A Volkswagen é hoje a marca que mais vende carros de passeio no Brasil, se incluir os comerciais leves ela fica na 2ª posição. Ela também tem o carro mais vendido (Polo) e SUV mais vendido (T-Cross).
A investida dos chineses iniciada em 2022 é bem visível nas ruas. A dupla Dolphin e Dolphin Mini são compactos elétricos de grande volume, enquanto o SUV médio Haval H6 é o carro híbrido mais vendido do país nos últimos anos.
O ano de 2025 fechou com a BYD emplacando 112.814 unidades, ficando à frente da Honda e da Nissan. A Caoa Chery vendeu 71.433 unidades e a GWM comercializou 42.784 unidades.
Nesse período chegaram novas marcas que estão crescendo em volume e possuem promessas de produção nacional, como a Omoda & Jaecoo, a GAC, a MG Motor, a Leapmotor e a Caoa Changan.
Até onde os chineses estão afetando as marcas tradicionais
O principal argumento das marcas chinesas nos últimos anos vem sendo a relação custo/benefício. Seus carros costumam se destacar em oferecer um pacote de equipamentos mais recheado, acabamento mais esmerado ou powertrain eletrificado pelo mesmo preço de equivalentes sem alguns desses itens.
A eletrificação virou o maior trunfo delas, pois diminui os custos de propriedade do veículo e pode até resultar em isenção de IPVA. O único fabricante com carros híbridos nacionais até então era a Toyota com o Corolla e o Corolla Cross.
Para Milad Kalume Neto, Diretor Executivo da K.LUME Consultoria Automobilística, as marcas que brigam contra as chinesas nos mesmos segmento serão as mais afetadas:
Observamos estas questões principalmente quando elas começaram a ganhar representatividade no mercado e as marcas tradicionais tiveram que diminuir preços ou adequar produtos para melhorar a competitividade. Hoje as chinesas continuam em crescimento com potencial de atingir maior mercado nos próximos 3 ou 4 anos.”
O especialista aponta que em 2016 as marcas de origem chinesa representavam por 0,5% de nosso mercado, em 2025 fecharam com 12,1% e no acumulado de 2026 já estão com 16,8% de participação.
Kalume também salientou que durante 2025 a GWM cresceu 48,3% e a BYD cresceu 46,9%, enquanto o mercado cresceu apenas 2,5%. Além de entregar um volume maior de vendas, os chineses também trouxeram a eletrificação para uma faixa mais ampla de consumidores.
Veteranas perderam espaço?
Na mesma toada de avanço das novatas chinesas, as marcas já instaladas também tiveram ganhos de volume. E em 2024, a VW emplacou 400.414 unidades, saltando para 436.297 em 2025, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Ou seja, um crescimento de 9% mesmo com o avanço das chinesas.
Já a Fiat, no mesmo período avançou cerca de 2%, com 521 mil unidades em 2024 e 533 mil em 2025. Para a General Motors, o cenário se inverteu, com queda de 315 mil licenciamentos (2024) para 276 mil em 2025. Uma retração na faixa dos 12%, no mesmo ano que ela passou a importar dois chineses (Captiva e Spark) e ainda fechou parceria para produção do compacto no Ceará.
A Hyundai, que é a quarta marca com maior volume de emplacamentos praticamente empatou no comparativo com 2024 e 2025. Foram 206 mil contra 203,5 mil, na ordem. Ou seja, o avanço dos chineses não corroeu as vendas dos quatro players, que corresponderam a 56% de todos os emplacamentos.
O público que compra os carros chineses
Nesse período de crescimento nas vendas de carros chineses o mercado também cresceu. As marcas já instaladas no Brasil anunciaram investimentos bilionários e lançaram projetos novos.
A Volkswagen e a Fiat conseguiram crescer em volume de vendas nos últimos cinco anos. Enquanto as japonesas Honda e Toyota são marcadas pela estabilidade, o HR-V, por exemplo, emplaca 50 mil unidades por ano de forma constante desde o lançamento em 2015.
Para Milad Kalume Neto os chineses estão criando um público novo, “que valoriza tecnologia, eletrificação, conectividade, segurança ativa, design diferenciado e qualidade sem necessariamente pagar alto por todos estes elementos”.
Mas ele lembra que a análise de cada marca pode ser complexa, pois depende de decisões da empresa. O especialista cita lançamentos, como o VW Tera, e o foco da Fiat em vendas diretas como fatores para o crescimento dessas marcas.
Já a Toyota foi afetada pelos danos causados em sua fábrica de motores em Porto Feliz (SP), em decorrência de uma tempestade no segundo semestre de 2025. Enquanto a Honda é citada como a mais afetada pelos chineses e precisa de uma renovação para buscar o público jovem.
O crescimento das marcas chinesas tende a estabilizar no futuro. Kalume vê uma possibilidade disso ocorrer dentro de três a quatro anos. Em parte isso será afetado pelas marcas tradicionais trazendo respostas diretas a esses modelos.
Já podemos ver uma movimentação do tipo, como a Chevrolet trazendo os chineses Spark EUV e o Captiva EV. A Stellantis possui em seu rol de marcas a Leapmotor, que é chinesa e está com produção nacional prevista. A Renault se uniu à Geely, que comprou um naco das instalações da francesa em São José dos Pinhais (PR).
Quanto as chinesas que estão chegando, algumas das 14 presentes atualmente no pais serão estabelecidas. Kalume enxerga as maiores com mais chances de sucesso:
Por fim, entendo que já existam muitas marcas chinesas no Brasil e não será difícil que alguma cause algum problema… não vejo as maiores e já estabelecidas cometendo erros grosseiros, mas as independentes correm riscos e, pior, trazem riscos para o consumidor brasileiro.”
O problema do regime de produção
O Brasil possui uma indústria automobilística madura, capaz de produzir a maior parte dos componentes e desenvolver carros novos localmente. O índice de nacionalização nos carros da Volkswagen é de 85%, por exemplo.
O avanço dos chineses começou nos importados, aproveitando as isenções dos impostos de importação para carros eletrificados. Como de costume, o volume dos importados ficou significativo a ponto da Anfavea pleitear a volta do tributo.
O imposto voltou em 2023 de forma escalonada, até atingir a alíquota de 35% que é cobrada para os veículos puramente a combustão em julho de 2026. A justificativa foi de incentivar a nacionalização desses carros e proteger a indústria.
Para contornar esse tributo as marcas chinesas começaram a sondar fábricas ou parcerias no Brasil, iniciando nos regimes CKD ou SKD. Isso gerou críticas vindas da Anfavea. Esses processos consistem em importar os carros desmontados em kits, com o trabalho local se resumindo a juntar os componentes.
Segundo a associação, a adoção desses regimes em carros de alto volume causaria um impacto de R$ 103 bilhões no setor, com perda de 69 mil empregos nos fabricantes e 227 mil postos de trabalho nos fornecedores.
Consultamos a BYD para saber o posicionamento da marca quanto a isso, mas ela não respondeu. Também consultamos a GWM, que nos retornou por meio de nota:
A GWM entende que esse é um tema que não pode comentar com propriedade, uma vez que seu modelo produtivo no Brasil é baseado no sistema “Peça por Peça” (Part by Part), que envolve um nível de industrialização superior aos regimes SKD e CKD. Na fábrica de Iracemápolis (SP), 100% dos veículos passam por processos completos de pintura e construção de carrocerias no país, agregando maior conteúdo local e etapas fabris.”
A BYD anunciou em 2025 que seus carros seriam feitos em regime SKD no Brasil e já teriam produção nacionalizada em 2026. Até então não deram novidades sobre os contratos de fornecedores.
O grupo Caoa, que começou a produzir o Changan Uni-T em Anápolis (GO) no regime CKD já adiantou que o carro terá componente nacionalizados em breve. A empresa também produz os carros da Chery na mesma unidade.
As marcas Geely, GAC e Leapmotor já apresentaram planos concretos de produção nacional iniciando com o regime CKD. Outras marcas, como a Omoda & Jaecoo e Jetour demonstraram a intenção de montar veículos no Brasil mas não deram detalhes sobre o local e a forma de produção.
O Brasil não é apenas um grande polo industrial para o consumo interno. Os carros feitos aqui são exportados para todo o continente americano e alguns atravessam os oceanos rumo a África e o Oriente Médio. A nacionalização desses carros pode expandir as possibilidades de negócios.
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