Montadoras chinesas ocupam fábricas que fracassaram no Brasil
A indústria automotiva chinesa é um colosso que vende, só em seu mercado doméstico, 34 milhões de veículos por ano. Além disso, exporta para praticamente todo o mundo. Mas o dragão não quer apenas exportar, quer produzir fora de casa, utilizando os kits que produz aos montes na China. E o Brasil se tornou uma espécie de rota migratória para as marcas da terra dos pandas.
VEJA TAMBÉM:
- Salão de Pequim é o maior do mundo: aceitar os chineses já não é mais discussão
- Salão de Pequim mostrou força das marcas chinesas
- Uso de IA escancara abismo entre carros chineses e resto do mundo
E uma estratégia adotada é aproveitar instalações de fabricantes que já operam no Brasil, fazendo uso dos regimes CKD e SKD. São modelos de produção que utilizam kits importados das matrizes. Eles chegam aqui e são apenas montados, como se fossem um grande Lego.
Em entrevista à Jovem Pan News, em 30 de abril, o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, deixou clara sua preocupação com esse modelo e principalmente ao lobby por incentivos fiscais.
“O investimento estrangeiro que vem ao Brasil e gera empregos, paga impostos, traz tecnologia, que seja bem-vindo. Agora, trazer um negócio semipronto, pedir incentivos e concorrer com a indústria local. Aí você tem um dumping interno. Montar um Lego é uma coisa. Industrializar de verdade é outra”, dispara.
De fato, a indústria chinesa se beneficia de benefícios fiscais para a produção, uma vez que os bancos estatais oferecem dinheiro com taxas quase irrisórias, dentre outros recursos que tornam a produção bem mais barata que nos demais mercados. Assim, trazer estes kits “baratinhos” para montagem final no Brasil é algo que impacta diretamente no restante da indústria.
Postos de trabalhos reduzidos
A Associação dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) estima que o CKD pode reduzir de 70% a 80% a necessidade de mão de obra, se comparado ao modelo convencional de fabricação de um automóvel. Ou seja, há uma preocupação latente de que a prática pode comprometer postos de trabalho no Brasil.
Não acreditamos que o CKD ou SKD sejam ruins, pois servem para testar o mercado com volumes menores. Mas a Anfavea sempre foi contra ao SKD e CKD em altos volumes. E não aceitamos, principalmente, com redução de impostos”, aponta o presidente da entidade, Igor Calvet.
Ocupação chinesa no chão de fábrica
Por outro lado, a chegada dos “Legos” chineses reduzem a capacidade ociosa de muitas fábricas que não conseguem atingir níveis sadios de produção. Mas Calvet alerta: “temos que observar a sofisticação da nossa produção. Nós temos hoje uma capacidade de produção de 4,5 milhões, mas com produção estimada de 2,7 milhões para 2026. Mas é preciso verticalizar a produção, com soldagem, pintura e estamparia. Tudo isso importa para sofisticar a nossa produção”.

A marcha dos chineses tem gerado anúncios, mas também ruídos. Um dos anúncios mais recentes é da Dongfeng, que é uma das fabricantes mais antigas em operação na China, e que confirmou sua estreia em terras tupiniquins. Mas chegou avisando que iria produzir e não apenas exportar.
Para isso, usaria a capacidade ociosa da planta da Nissan, em Resende (RJ), para montar seus modelos. As duas são parceiras de longa data (lá fora), o que teria facilitado a costura do acordo. É fato que a Nissan opera abaixo de sua capacidade instalada, mas a japonesa por sua vez, nega qualquer acordo. Um executivo da filial brasileira da Nissan,revelou que se trataria de: “uma busca por mídia”.
Mesmo assim, de acordo com executivos da Dongfeng, a marca deverá iniciar suas operações (como fabricante) com o modelo Box, um hatch compacto elétrico, que concorre no segmento dominado pelo BYD Dolphin. E por falar em BYD Dolphin, a marca também recorreu à estratégia de buscar uma infraestrutura já montada, quando comprou a planta da Ford, em Camaçari (BA), embora esteja construindo novos prédios para ocupar com a sua linha.

Fábricas e mais fábricas
O mesmo roteiro foi seguido pela GWM, que adquiriu a linha de montagem da Mercedes-Benz, em Iracemápolis (SP), e hoje produz os modelos Haval H6, Haval H9 e a picape Poer P30. Mas o plano de utilizar instalações prontas acelera o processo de “nacionalização” do processo fabril, uma vez que se reduz tempo com obras de infraestrutura, que podem arrastar a inauguração de uma fábrica, uma vez que do lançamento da pedra fundamental até o corte da fita, são pelo menos quatro anos de obras.
No entanto, a antiga planta da Mercedes não parecer ser o bastante. A marca de Baoding erguerá uma segunda fábrica em Aracruz (ES), de olho nas exportações para o restante do mercado latino. Um executivo pontuou que a infraestrutura portuária foi fundamental pela escolha do local. “Eles têm um porto com calado mais profundo do país (25 metros), o que facilita manobras de navios cegonha”, comentou.

Além disso, há um vento favorável para as marcas chinesas: a oferta de fábricas ociosas no Brasil. Uma delas é a planta da Jaguar Land Rover, em Itatiaia (RJ), pertinho da fábrica da Nissan. A linha foi erguida nos anos 2010, em função do programa Inovar-Auto, e será assumida pela Omoda & Jaecoo.
A planta ficou pronta em 2016, a um custo de R$ 750 milhões (em valores da época). Algo próximo a R$ 1,2 bilhão em valores atualizados. Com capacidade instalada para 24 mil unidades, a planta nunca conseguiu montar mais que 3 mil carros. Em 2025, apenas 757 unidades dos modelos Discovery Sport e Evoque saíram da linha de montagem.
Para os britânicos, a venda veio em excelente momento, assim como para os chineses, que chegam com boa parte da obra adiantada, restando basicamente a substituição de maquinário e ferramental.
CKD Chinês no Centro Oeste
Mas não são apenas as ociosas plantas fluminenses que atraíram a atenção das marcas chinesas. Em Março, a HPE Motors fechou acordo com a GAC. A empresa que por muitos anos produziu modelos Mitsubishi e Suzuki, na fábrica de Catalão (GO) agora cederá espaço para a chinesa, que fez sua estreia em 2025. A HPE opera atualmente com cerca de ¼ de sua capacidade, que é de 120 mil unidades anuais.

A GAC montará o SUV compacto GS3, que foi lançado recentemente no mercado, a partir de 2027. Ao contrário da maioria dos chineses que aportam por aqui, o modelo chega equipado com motor 1.5 turbo de 170 cv. A expectativa é iniciar a montagem local, em regime CKD, com capacidade de 50 mil, mas escalar para 100 mil até 2030, praticamente preenchendo toda a capacidade da instalação.
Neste contexto ainda há espaço para a Caoa, monta modelos Chery em Anápolis (GO). Com o fim da parceria com a Hyundai, o grupo passou a montar também modelos da Changan. O Uni-T é o primeiro da marca com produção local.
Linhas de montagem compartilhadas
Com tantas marcas chinesas desembarcando para montar carros localmente, fabricantes já instalados também buscam uma forma de competir com elas. A Geely comprou 26,5% da Renault do Brasil e, agora, já tem acesso a fábrica de São José dos Pinhais (PR) para a Geely.
A parceria entre franceses e chineses é para produção de carros da marca mandarim, em território brasileiro, mas também para o fornecimento de componentes para futuros modelos Renault eletrificados.

Já a Stellantis, que é sócia da Leapmotor, vai começar a produzir os modelos C10 e B10, na unidade de Goiana (PE), de onde saem modelos Jeep, Fiat e Ram. O grupo quer atacar com sistema REEV, que combina motor a combustão e elétrico, sendo que a unidade térmica atua apenas como gerador de eletricidade para as baterias.
A General Motors, que é parceira da Wuling, terceirizou a montagem do Spark EV à Comexport, que assumiu o controle da antiga unidade de produção da Troller, em Horizonte (CE). O Captiva EV também será montado na unidade cearense, a partir deste ano, assim como os EMOVA Easy e EMOVA Urban, da E-Motors Brasil.
‘Minha fábrica, minha vida’
Quem também está de olho numa fábrica “encostada” para chamar de sua é a BAIC, a gigante chinesa, prepara sua estreia no fim do ano, mas de olho na montagem local. De acordo com o portal Autos Segredos, a meta é fabricar no Brasil, em regime de CKD.

A Jetour, que já vende seus SUVs no Brasil, também confirma a meta de produção local, mas não bateu o martelo se compra uma fábrica pronta ou se construirá uma novinha em folha. Mas vale lembrar que a Caoa tem uma planta inativa em Jacareí, que poderá ir a leilão. A unidade foi erguida pela Chery, que controla a Jetour, nos anos 2010, onde eram produzidos os modelos Celer e Celer Sedan. Anos mais tarde, sob a tutela da Caoa passou a montar modelos como Tiggo 2 e Arrizo 5.
from AutoPapo https://ift.tt/e2jEOKq
via IFTTT
Comentários
Enviar um comentário