Renault Laguna: só quem sofreu se lembra dele
A Renault estava se consolidando no Brasil. Após a abertura das importações, no início da década de 1990, a marca francesa passou a trazer para o mercado nacional modelos como o Renault 19 e o Renault 21, importados da Argentina, além do simpático Twingo, vindo da França a partir de 1993.
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Mas a fabricante queria mostrar ao consumidor brasileiro que era capaz de oferecer produtos mais modernos, sofisticados e tecnológicos. Foi com esse objetivo que, em 1996, iniciou a importação do Renault Laguna, modelo lançado na Europa em 1994 para substituir o já envelhecido Renault 21.
Estilo futurista
O Laguna chamava atenção pelo visual futurista para a época. Suas linhas fluidas e aerodinâmicas transmitiam modernidade, enquanto a grande tampa traseira integrava também o vidro, solução que reforçava a personalidade do modelo. Naquele período, tratava-se de um desenho bastante ousado.

A chegada do Laguna também fazia parte da estratégia da Renault para preparar o consumidor brasileiro para a futura produção nacional da marca, que começaria no fim de 1998. O sedã francês já era um sucesso na Europa e tinha a missão de fortalecer a imagem tecnológica da fabricante no Brasil.
Por aqui, seus principais concorrentes eram o Chevrolet Vectra, o Ford Mondeo e o Volkswagen Passat de origem alemã.
Em termos de preço, o Laguna custava aproximadamente R$ 40 mil. Ficava acima do Vectra, encontrado por cerca de R$ 35 mil, e do Mondeo, vendido na faixa dos R$ 38 mil. Apenas o Passat era mais caro, ultrapassando os R$ 45 mil.
Laguna sofreu com a má reputação dos antecessores
Dentro desse cenário, o francês competia de igual para igual com os rivais. Além do visual diferenciado, oferecia equipamentos pouco comuns na época, como o computador de bordo com mensagens por voz, um recurso que ajudava a reforçar sua imagem tecnológica. Apesar disso, as vendas nunca empolgaram.
Parte da explicação estava na reputação construída pelos Renault 19 e 21. Embora fossem automóveis modernos para sua época, deixaram uma série de reclamações relacionadas à manutenção e à disponibilidade de peças. Ainda que de forma indireta, essa imagem acabava influenciando a percepção do consumidor em relação ao Laguna.

A maioria dos exemplares vendidos no Brasil utilizava câmbio manual de cinco marchas. O público nacional ainda demonstrava certa resistência aos câmbios automáticos de quatro velocidades, que muitos consideravam caros de manter e potencialmente problemáticos.
Desde o início, os números de vendas ficaram muito abaixo dos concorrentes. Enquanto o Chevrolet Vectra registrava entre 20 mil e 30 mil unidades por ano, o Laguna normalmente vendia entre 2 mil e 3 mil exemplares anuais.
A situação mudou em 1998, quando a Renault passou a trazer grande parte dos modelos vendidos no Brasil de sua fábrica argentina de Santa Isabel. Embora o preço permanecesse competitivo, muitos consumidores passaram a enxergar o carro de forma diferente. Para alguns, o fato de deixar de ser importado da França reduzia parte de seu apelo e exclusividade.
Dólar foi a pá de cal
Mas o pior ainda estava por vir.
Em 1999, o governo brasileiro abandonou o regime de câmbio controlado e passou a adotar o câmbio flutuante. Em poucos meses, a cotação do dólar saltou de aproximadamente R$ 1,10 para cerca de R$ 1,90.
O impacto sobre os veículos importados foi imediato.
Na prática, um Laguna que custava em torno de R$ 40 mil passou a se aproximar dos R$ 70 mil. O mesmo aconteceu com outros importados, como Mondeo e Passat. Entretanto, o Vectra nacional sofreu reajustes muito mais modestos, tornando-se uma alternativa muito mais atraente para o consumidor brasileiro.

O resultado foi devastador para o Laguna. As vendas, que já eram modestas, despencaram para algo próximo de 500 unidades por ano. O modelo passou de um produto de nicho para um automóvel praticamente inviável comercialmente.
Mesmo assim, a Renault manteve o carro no mercado até 2002. Nessa época, porém, a fábrica brasileira já operava a pleno vapor produzindo modelos de grande sucesso, como o Clio e a Scénic. Diante desse cenário, o Laguna transformou-se mais em uma dor de cabeça do que em uma oportunidade de negócios.
No início de 2003, a Renault ainda estudou a importação da segunda geração do modelo. Mais moderna, sofisticada e visualmente atraente, ela tinha potencial para conquistar parte do mercado. Entretanto, o preço final seria tão elevado que o projeto acabou abandonado antes mesmo de começar.
Problemas crônicos
Além das dificuldades comerciais, o Laguna também acumulava reclamações de seus proprietários.
A suspensão de curso curto sofria bastante com a má qualidade das ruas e estradas brasileiras. Era comum ocorrerem batidas secas em buracos, além de desgaste prematuro de buchas, amortecedores e componentes de suspensão.
A caixa de direção também era frequentemente afetada pelos impactos provocados pela buraqueira, exigindo reparos antes do esperado.

Outro ponto de reclamação envolvia a parte elétrica. A combinação entre calor, umidade e as características do clima brasileiro acabava provocando falhas em conectores e sensores eletrônicos. Como consequência, o sofisticado computador de bordo frequentemente apresentava informações incorretas ou alertas indevidos, frustrando muitos proprietários.
Na prática, o Laguna acabou sofrendo com uma adaptação insuficiente às condições brasileiras. Entre custos elevados, problemas de manutenção e forte desvalorização no mercado de usados, o modelo jamais conseguiu conquistar a confiança do consumidor.
Hoje, permanece como uma curiosidade interessante da história da Renault no Brasil: um automóvel moderno, tecnológico e à frente de seu tempo, mas que nunca conseguiu transformar suas qualidades em sucesso comercial.
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