Peugeot Hoggar: a picape que agonizou por quatro anos no Brasil

Era maio de 2010 quando a Peugeot reuniu jornalistas especializados para apresentar ao mercado brasileiro sua nova picape compacta. O modelo era baseado no Peugeot 207, do qual herdava toda a dianteira mecânica. Na traseira, recebia uma caçamba com capacidade próxima de 1.150 litros e carga útil superior a 700 quilos, dependendo da versão. Assim configurada, a Peugeot Hoggar surgia como uma concorrente capaz de disputar espaço com Fiat Strada e Volkswagen Saveiro, líderes absolutas do segmento.

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Na teoria, tudo parecia muito promissor. A nova picape oferecia boa capacidade de carga, visual moderno e uma mecânica já conhecida do consumidor brasileiro. Mas a prática mostrou um cenário bem diferente. Os Peugeot já não desfrutavam da melhor reputação no mercado nacional, consequência de uma série de problemas que afetaram diversos modelos da marca ao longo dos anos. Com a Hoggar, a situação ficou ainda mais evidente, porque ela era utilizada justamente na função mais dura possível: trabalho pesado.

Os fracos motores da Peugeot Hoggar

A picape chegou ao mercado equipada com duas opções de motorização. A primeira era o conhecido 1.4 Flex de oito válvulas, capaz de gerar até 82 cv. A segunda era o 1.6 16V, com potência próxima de 113 cv. Eram os mesmos motores utilizados em outros modelos da marca. A diferença é que, na Hoggar, esses conjuntos eram submetidos a um esforço muito maior, especialmente quando o veículo trafegava constantemente carregado próximo do limite de sua capacidade.

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A Hoggar usou muito que havia na prateleira, até no chassi, mas na hora da lida motor e carroceria se mostraram fracos (Foto: Peugeot | Divulgação)

Foi justamente aí que começaram os problemas. A versão 1.4, que acabou sendo a mais vendida, ganhou fama pelas ocorrências envolvendo a junta do cabeçote. Em situações de uso mais severo, não eram raros os casos de vazamentos de líquido de arrefecimento e superaquecimento. Para quem dependia da picape para trabalhar, isso significava veículo parado na oficina, prejuízo financeiro e perda de produtividade. Uma situação inaceitável para uma ferramenta de trabalho.

As versões equipadas com o motor 1.6 sofriam menos com esse tipo de defeito, mas apresentavam outra fragilidade. A potência e o torque superiores acabavam transferindo o esforço para a transmissão. Sob uso constante com carga, diversos proprietários relatavam desgaste prematuro de rolamentos internos do câmbio, que começavam a emitir ruídos e exigiam desmontagem e reparo. Novamente, o resultado era o mesmo: a Hoggar parada na oficina enquanto o dinheiro deixava de entrar no caixa de quem dependia dela para trabalhar.

Hoggar era ruim de serviço

Os problemas não terminavam aí. Eram comuns as reclamações envolvendo falhas elétricas, além de desalinhamentos frequentes da tampa traseira da caçamba. Evidentemente, quem utilizava a Hoggar apenas como veículo de passeio talvez não percebesse muitos desses inconvenientes. Já aqueles que colocaram a picape para cumprir a função para a qual ela foi criada, transportar carga diariamente, reclamaram bastante da quantidade de defeitos e da baixa resistência de alguns componentes. Definitivamente, a Hoggar nunca conseguiu construir a reputação de robustez que se espera de um veículo de trabalho.

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Capacidade de carga declarada era de 700 kg, mas carregada, ela sofria a ponto de desalinhar a tampa da caçamba (Foto: Peugeot | Divulgação)

Os números ajudam a explicar o desfecho dessa história. Em seu primeiro ano cheio de mercado, a Hoggar ultrapassou a marca de cinco mil unidades vendidas. Depois disso, as vendas entraram em queda livre. Em 2014, quando saiu de linha, já comercializava menos de 400 exemplares por ano. Durante toda a sua trajetória, acumulou algo em torno de 20 mil unidades vendidas, um volume que a Fiat Strada alcançava em poucos meses.

A Peugeot Hoggar acabou se tornando um exemplo clássico de um produto que parecia interessante no papel, mas que fracassou quando colocado à prova no mundo real. A ideia era boa. O segmento tinha potencial. O mercado crescia rapidamente. Mas a execução ficou aquém do necessário. Problemas mecânicos, falhas de qualidade e uma reputação cada vez mais desgastada fizeram com que a picape francesa perdesse espaço rapidamente. Poderia ter construído uma trajetória mais longa ao lado de Strada e Saveiro, mas acabou se transformando em mais um projeto que não resistiu às exigências do consumidor brasileiro.



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